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DA ESTRUTURA DO TRABALHO) Grafismos urbanos: contextos e discursos nos muros de Belém do Par&aac...

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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Foz do Iguaçu – 2 a 5/9/2014

(MODELO DA ESTRUTURA DO TRABALHO) Grafismos urbanos: contextos e discursos nos muros de Belém do Pará 1 Alesson Luis RODRIGUES Lameira2 Luana Tereza Coelho de OLIVEIRA3 Rogério ANDRESON de Almeida Silva4 Netília Silva dos Anjos SEIXAS5 Universidade Federal do Pará,

Belém,

Resumo Este trabalho busca compreender como os grafismos urbanos da cidade de Belém do Pará atuam como portadores de discursos,

enunciados capazes de contemplar realidades diversas e servir como meio de comunicação de grupos marginalizados ao acesso à cultura e à expressão.

Para tal empreendimento,

partiu-se dos conceitos de Maingueneau (2001),

Verón (2004),

Barthes (1990) e Bakhtin (1990) acerca da análise do discurso e das formas de expressão,

e de autores como Pennachim (2003),

Pinheiro (2007),

Spinelli (2007),

Baudrillard (1976) Furtado e Zanella (2012) que estudam as influências dos grafismos na sociedade.

Foi realizada uma análise do discurso de quatro grafismos pixados no Complexo Viário do Entroncamento,

de acordo com as teorias mencionadas.

Palavras-chave: Belém

Introdução Desde os primórdios de sua existência,

o ser humano é incomodado pela necessidade de se expressar,

de se relacionar com o meio no qual está inserido,

sendo por ele influenciado e influenciando na medida do possível.

Isso é perceptível ao se observar as figuras inscritas nas paredes das cavernas pelos ancestrais do homem,

numa representação da misticidade e cotidiano do começo da história humana.

Essa necessidade continua a fazer parte da alma do homem,

porém hoje concretiza-se por outros meios,

Trabalho apresentado na Divisão Temática 8 – Estudos Interdisciplinares da Comunicação,

da Intercom Júnior – X Jornada de Iniciação Científica em Comunicação,

evento componente do XXXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação 2

Aluno-líder do trabalho.

Estudante de Graduação 4º.

semestre do Curso de Jornalismo da FACOM-UFPA,

Coautora do trabalho.

Estudante de Graduação 4º.

semestre do Curso de Jornalismo da FACOM-UFPA,

Coautor do trabalho.

Estudante de Graduação 4º.

semestre do Curso de Publicidade e Propaganda da FACOM-UFPA.

Orientadora do trabalho.

Professora Doutora da Faculdade de Comunicação da UFPA e do Programa de Pós-graduação Comunicação,

Cultura e Amazônia da UFPA,

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alcançando outros objetivos e outros seres humanos,

que também compartilham dos mesmos anseios.

No passar dos séculos o homem desenvolveu diversas formas de expressão,

que transformaram a percepção da realidade,

introduzindo-o numa noção artística e de existência da comunicação,

produzindo um ambiente cada vez mais repleto de vozes.

Com o tempo começaram a surgir as formas alternativas de expressão e comunicação,

representantes de uma rebelião contra a cultura dominante,

um esforço para demarcar espaço e sobreviver em meio à miríade de mensagens lançadas e expostas diariamente do mundo.

Dentre essas formas,

talvez as mais marginalizadas sejam a pixação – ou pixação – vista histórico-culturalmente como vandalismo e sujeira,

que surge como expressão artística,

mas que ainda assim é vindo das massas e sofre com marginalização semelhante a da pixação (FURTADO,

ZANELLA,

2012).

Essas formas de expressão ganharam força e já compõem a paisagem de muitas grandes cidades do Brasil e do mundo,

aparecendo como um meio de exposição da realidade de diversos grupos sociais que não teriam vez ou voz nos meios tradicionais de comunicação e de produção cultural e artística (BAUDRILLARD,

1976).

Dessa maneira,

grafite e pixação aparecem como meio alternativo de comunicação de opiniões e de necessidades de grupos vilipendiados de seus direitos mais básicos,

dentre eles o de livre expressão (FURTADO,

ZANELLA,

2012).

Pretende-se analisar,

como pixação e grafite – unificados conceitualmente por Pennachim (2003,

discursos esses que usam como suporte,

de acordo com o pensamento sobre discurso de Verón (2004),

estes últimos funcionando como um grande veículo comunicacional aberto a toda pluralidade de formas de expressão,

não exclui ninguém nem ideia alguma”.

Dessa forma,

os grafismos urbanos figuram como portadores de enunciados que não seriam veiculados em meios convencionais de comunicação.

Os grafismos urbanos podem ser caracterizados,

forma de rebelião e rebeldia contras as formas,

fórmulas e meios impostos pela organização social para a expressão e comunicação.

A pixação é a voz que o pixador não tem na televisão,

nas câmaras de deputados e nos

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sendo que nem dessa voz lhe é permitido que se arme para lutar por uma vida melhor (FURTADO,

ZANELLA,

2012).

A partir das informações introduzidas,

parte-se para a análise dos grafismos urbanos de acordo com o pensamento de autores de referência para a Análise do Discurso,

com o qual dialoga-se acerca das características presentes no discurso e da polifonia existente nas expressividades do muro

Bakhtin (1990)

Baudrillard (1976) – que discorreu acerca dos grafismos urbanos em sua origem na cidade de Nova Iorque,

nos Estados Unidos – e vários outros autores que contribuíram na interpretação dos códigos perceptíveis pelos grafismos.

O objetivo neste estudo é fazer um breve percurso sobre os grafismos urbanos presentes na cidade de Belém do Pará,

estes atuando como discursos dos considerados “excluídos”,

o qual poucas pessoas compreendem.

Os grafismos urbanos serão analisados neles próprios,

o muro como suporte que carrega vozes traçadas,

A pesquisa,

mostra-se pertinente no momento em que as formas de expressão e os discursos contidos e veiculados nos grafismos urbanos passam a ser entendidos como produtos de um contexto social,

que busca identidade e o direito de expressão (FURTADO E ZANELLA,

2012).

Grafismos urbanos: definições As artes de muro são geralmente conhecidas como grafites e pixações.

Além dessas formas de expressão com spray,

há também o stencyl,

tags e os grafitos de banheiro,

este último termo cunhado por Gustavo Barbosa no livro “Grafitos de banheiro: a literatura proibida” (1984).

No Brasil há diferenças e semelhanças no ato de pichar e no ato de grafitar (PINHEIRO,

2007).

O grafite que costumamos reconhecer é o desenho mais elaborado,

profundidade e com várias outras técnicas de elaboração,

geralmente feito somente com os sprays (PINHEIRO,

2007).

A pixação possui uma forma de reconhecimento diferente,

Ambas,

estão nos muros e se configuram como uma sendo “arte” e a outra “sujeira”.

Os grafismos urbanos,

conforme afirma Baudrillard (1976),

são expressões de um grupo ou de uma pessoa que tenta ou não dizer alguma coisa.

O termo grafite vem do latim,

Luizan Pinheiro (2007) explica a origem da palavra “grafito”:

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Do que vimos geralmente nos mais diversos autores é a utilização do termo graffiti plural do termo italiano – grafitto (rabisco),

para designar os tipos de intervenções parietais surgidas desde a Pré-História,

as intervenções em Nova York na década de 60/70 até os atuais grafites artísticos urbanos desenvolvidos desde os disparos nova yorkinos.

(PINHEIRO,

2007,

Os grafismos urbanos tiveram origem e,

maior visibilidade a partir das décadas de 1960 e 1970.

Falar de grafite e pixação é tratar de interpretações abstratas e fluidas (PINHEIRO,

2007).

Aqui pode se levar também em consideração que o muro não é um suporte duradouro,

já que na cidade ocorrem muitas mudanças e essas mudanças por vezes atingem os grafismos de forma rápida e definitiva (PENNACHIM,

2003).

O pesquisador Luizan Pinheiro,

a pixação e a arte contemporânea,

discute no trabalho “Grafite e pixação: institucionalização e transgressão na cena contemporânea” (2007) a grafia do termo pixação.

Segundo o pesquisador,

Culturalmente falando,

escrever pixação com X relaciona-se melhor com os movimentos de pixadores,

para os quais até a grafia do nome da atividade que desempenham é uma maneira de contestação.

Por esse motivo,

também utilizaremos neste trabalho a grafia com a letra X do termo,

de acordo com as definições dos produtores diretos,

É válido também ressaltar que pixação é um termo genuinamente brasileiro,

que seria o desenho “sobre qualquer superfície,

2007,

O termo não é utilizado em outros países,

sendo ambas as formas de expressão,

aglutinados no termo graffiti (BAUDRILLARD,

PINHEIRO,

2007).

De acordo com Spinelli (2007,

feitas com spray ou rolo de pintura”.

Segundo o autor,

as letras têm papel fundamental na significação ou não das pixações,

sendo compostas por características arabescas,

influências góticas e outras ramificações,

que podem contribuir para a compreensão ou para a falta dela,

segundo os objetivos do pixador (SPINELLI,

2007).

Para ele,

a não compreensão dos objetivos contidos na mensagem é motivada,

pela construção das letras utilizadas,

A grafia com CH,

é mantida nas citações diretas dos autores.

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característicos das pixações.

Spinelli (2007) diz,

citando Massimo Canevacci 7: “talvez seja devido a esta matriz obscura e misturada – simultaneamente árabe e gótica,

quase o máximo da incompreensibilidade – que raramente se compreenda o sentido desses grafites” (CANEVACCI,

1993,

2007,

Já o grafite surge com objetivos diferentes,

apesar de partilhar das mesmas origens que a pixação.

O grafite caracteriza-se pelas suas relações artísticas com o meio no qual se insere,

influenciando-o de forma menos insuflada que a pixação.

Segundo a análise de Janaína Furtado e Andrea Zanella no artigo “Grafitti e pichação: relações estéticas e intervenções urbanas” (2012,

o grafite “vendo sendo considerado arte urbana e pouco a pouco cooptado pelo sistema econômico-social”.

As autoras (2012,

privilegiando as imagens em decorrência de suas origens nas artes plásticas”.

Grafite e pixação foram considerados crimes contra o meio ambiente na Lei nº 9.605,

sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso,

Seção 4,

Artigo 65,

segundo o qual era crime “pichar,

grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano”,

o que caracterizava pixadores e grafiteiros como criminosos responsáveis por depreciar o patrimônio público e causar dano ao meio ambiente.

O referido artigo foi modificado em 2011 e um parágrafo foi acrescentado afirmando que não era mais considerada crime a prática do grafite feita “com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística” autorizada pelos proprietários dos locais onde serão feitos os grafites,

sejam públicos ou privados.8 A descriminalização da prática do grafite vai ao encontro do que afirmam Furtado e Zanella (2012) ao dizerem que o grafite é mais bem aceito pela sociedade e pelas estruturas sociais,

sendo ao longo dos últimos anos inserido nos conceitos de arte e utilizado de acordo com interesses superiores,

antes avessos à essa prática.

A marginalização dessas formas de expressão,

não deixa de ser característica marcante delas,

fortalecendo seu caráter de revolta contra as instâncias midiáticas e linguísticas dominantes,

que ainda mantém pixação e grafite segregados sob a ideia de serem produtos de “bandidos” e “marginais” (BAUDRILLARD,

FURTADO E ZANELLA,

2012).

CANEVACCI,

Massimo.

A Cidade Polifônica.

São Paulo: Studio Nobel,

1993.

Lei nº 9605/1998 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm

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Discurso,

contexto e polifonia Um dos nomes de referência da Análise do Discurso é o de Dominique Maingueneau (1950),

linguista e professor da Universidade da Paris IV.

O teórico escreveu acerca da Análise do Discurso e como o discurso é formado por etapas,

desde a produção à recepção ou interpretação.

No livro “Análise de textos de comunicação” (2001),

o autor discorre acerca do discurso e de cada uma das suas características.

Para ele,

pode ser concebido de acordo com a pragmática,

reunião das ciências humanas e das linguagens que diz que o discurso,

não poderia ser interpretado fora do seu lugar de concepção,

2001).

Para Maingueneau (2001),

a observação do contexto da produção dos enunciados é de grande importância para a interpretação dos possíveis sentidos de tais enunciados.

Segundo o autor (2001,

“o contexto não é necessariamente o ambiente físico,

o momento e o lugar da enunciação”,

mas também toda a conjuntura de construção do enunciado,

todos os conhecimentos empregados na interpretação da mensagem e as formas de acordo com as quais o enunciado é constituído.

Tratando sobre os enunciados escritos,

ele afirma que nesses enunciados não estariam contidas todas as ferramentas para que se pudesse chegar ao sentido da inscrição.

Se fosse assim,

inúmeras mensagens escritas seriam compreendidas apenas com o olhar do leitor – chamado de “destinatário”,

“co-enunciador” – que seria capaz de chegar ao sentido pretendido pelo enunciador apenas dominando o código utilizado para compor o enunciado,

possuindo o que Maingueneau chamou de “conhecimento do léxico e da gramática da língua” (MAINGUENEAU,

2001,

O autor (2001) defende em seu texto que a interpretação do sentido de determinadas sequências verbais não pode ser feita sem se levar em consideração o contexto de produção daquele enunciado.

Para ele,

o conhecimento do léxico é muito importante para a interpretação dos enunciados,

mas também os conhecimentos humanísticos,

as experiências pessoais de cada indivíduo a quem se dirigirá o sentido da enunciação.

Contando com todo esse conhecimento de mundo,

o indivíduo responsável pela interpretação dos sentidos do enunciado seria capaz de construir um contexto para a enunciação,

chegando de forma mais concreta e eficaz ao sentido do texto pretendido pelo enunciador (MAINGUENEAU,

2001).

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Mecanismos como utilizar verbos no infinitivo,

palavras que funcionem como uma ligação “diretamente na situação de enunciação” (MAINGUENEAU,

2001,

tipos específicos em locais específicos levam a determinadas interpretações,

mostrando a importância de analisar o contexto onde se insere o enunciado observado,

chegar ao sentido da mensagem.

Diante de tantas definições,

torna-se complexo empregar uma que caracterize de forma plena o discurso.

De acordo com Maingueneau (2001,

o emprego do termo “discurso” revela-se ambíguo,

já que ele remete “tanto ao sistema que permite produzir um conjunto de textos,

quanto o próprio conjunto de textos produzidos”.

Assim sendo,

o discurso poderia designar todo o complexo ideológico,

cultural e linguístico no qual está inserida a personalidade do enunciador ou do grupo do qual faz parte,

e também o resultado enunciativo em sequências escritas,

Para que se alcance uma melhor compreensão sobre o tema,

Maingueneau (2001) explana acerca das várias características do discurso.

Segundo ele,

“visa modificar uma situação” (2001,

pela “interação” entre dois sujeitos

é uma forma de ação

mesmo que não esteja explícita a figura do destinatário.

Bakhtin (1990,

este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor.

A palavra dirige-se a um interlocutor”.

Como citado anteriormente,

é necessário que se compreenda o enunciado dentro de um contexto,

este sendo o lugar básico de onde parte a produção do discurso.

Dentro do discurso é possível que se delimite o contexto de enunciação

o discurso também sempre remete a um sujeito,

um indivíduo que se responsabilizará por sua produção.

Este sujeito também é chamado de “fonte de referências” (MAINGUENEAU,

2001,

já que ele se responsabiliza pelo que está enunciando,

atribuindo confiabilidade àquilo que fala.

Esse mesmo sujeito pode,

atribuir a responsabilidade pelo enunciado a outro sujeito,

de outros sujeitos enunciadores,

aproximando-se do conceito de polifonia,

que será a relação de um discurso a vários outros para se chegar a sua interpretação.

O conceito de polifonia é outro pensamento de Maingueneau (2001) baseado nos estudos sobre a interação do filósofo Mikhail Bakhtin (1895–1975).

Segundo esse conceito,

é possível perceber vozes diversas em um discurso.

Essas vozes podem demonstrar outros contextos.

A utilização dessas vozes diversas no mesmo

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enunciado pode ser realizada pelo locutor para que a responsabilidade pelo que é dito não recaia sobre ele,

no chamado “discurso citado” (MAINGUENEAU,

2001).

A modalização é um meio de se deixar clara a presença de outros enunciadores em um único enunciado.

Sendo assim,

através dos modalizadores – palavras como “segundo

segundo fontes bem informadas” (MAINGUENEAU,

2001,

p.139) – é possível atribuir o enunciado a outros enunciadores.

Concluindo a perspectiva traçada acerca do discurso e polifonia,

parte-se para a correlação das teorias com os modos de expressão alternativos no contexto urbano.

Neste momento,

realizados no Complexo Viário do Entroncamento9,

situado na entrada e saída rodoviárias da capital paraense (cf.

Figura 1),

um dos mais importantes pontos de escoamento do trânsito da Região Metropolitana de Belém.

Grafismos na percepção local Belém do Pará,

como outras grandes cidades brasileiras,

não passa ilesa da ação dos movimentos de pixadores.

Assim como em outras cidades,

os grafismos em Belém carregam consigo mensagens de esperança e,

É o que observa Pinheiro (2007,

ao dizer que os grafismos continuam se configurando como uma “intervenção radical impondo à matéria uma desnorteante visualidade”.

Para entender essa composição visual urbana,

foi realizada no dia 17 de junho de 2014 uma saída a campo em direção às pixações e grafites feitos nas paredes do Complexo do Entroncamento,

O complexo viário passou por uma grande reforma para adequação do tráfego automobilístico,

que trouxe dois grandes elevados,

além de uma extensa área verde,

que compõe a harmonia paisagística do local.

O novo complexo configura-se como um lugar onde “artista-pixador ou pixadorartista” (PINHEIRO,

2007,

É importante destacar que,

um dia antes da inauguração do complexo,

ocorrida no dia 11 de janeiro de 2014,

a Prefeitura Municipal de Belém,

principal responsável pela obra,

Grande complexo viário,

composto de um túnel e dois elevados em rotatória,

localizado entrada e saída da cidade de Belém do Pará,

no início da rodovia federal BR-316.

Para este ponto confluem as principais avenidas da cidade.

Passam por ele todas as pessoas que venham a Belém por terra,

tornando o local um ponto de superexposição para as mensagens dos grafismos urbanos.

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Foz do Iguaçu – 2 a 5/9/2014

permitiu que vários grupos de grafite fizessem pinturas no local,

com mensagens de paz ou de valorização da cultura amazônica.

Figura 1: Vista aérea do novo complexo viário do Entroncamento.

Fonte: http://ww3.belem.pa.gov.br/www/

Foto: Arquivo Comus

A abertura do local para utilização artística relaciona-se com o que afirma Pinheiro (2007,

diluição e domesticação dessa expressão urbana pelos sistemas de arte”.

O autor (2007,

o grafite encontra-se “agenciado por arquitetos,

curadores e produtores culturais que o integram ao modelo visual contemporâneo numa estética que embevece e satisfaz” (p.

Dessa maneira,

o grafite hoje se apresenta institucionalizado,

mesmo que em alguns lugares ainda carregue uma aura de criminalidade e deturpação da paisagem,

é mais quisto e apreciado que sua “parenta” próxima,

Quanto à pixação,

ela também se destaca nas paredes sinuosas do complexo.

Como diz Pennachim (2003),

grafite e pixação encontram-se unidos,

hibridizados a tal ponto que é impossível defini-los ou encontrá-los em separado na paisagem urbana.

Juntamente com os grafites autorizados pelo governo,

vieram também ao Entroncamento as pixações,

continentes de mensagens nem sempre favoráveis ao que se pretende com a permissão da Prefeitura para a utilização artística das paredes dos elevados.

Tomemos como primeiro objeto de análise um grafismo feito na parede de um dos elevados do complexo do Entroncamento (cf.

Figura 2).

Nele pode-se ver uma inscrição que se caracteriza como uma pixação.

É possível ler na inscrição “Não sou rei,

Segundo Furtado e Zanella (2012),

com base no pensamento de Eni Orlandi acerca das diferenças entre grafite e pixação,

as pixações apresentam-se “como discurso no urbano,

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apresentam como sujeitos de vontade,

na luta por espaços de significação” (FURTADO E ZANELLA,

2012,

Figura 2: Pixação em um dos elevados do complexo do Entroncamento,

Fonte: acervo de pesquisa dos autores.

Foto: Luana Coelho.

A inscrição pixada na parede do complexo do Entroncamento pode produzir um efeito,

ou mesmo um “campo de efeitos de sentido” (VERÓN,

2004,

216).

Os sentidos da enunciação,

como afirma Maingueneau (2001,

são “assimétricos”,

já que a reconstrução das intenções do enunciador parte de elementos presentes no enunciado.

A pixação remete a uma pessoa falando.

Eliseo Verón,

em seu livro “Fragmentos de um tecido” (2004) explica que a voz perceptível no discurso é do enunciador.

No caso do grafismo,

o enunciador utiliza-se da pixação para expor a sua mensagem.

O enunciador,

estabelece um lugar de fala para si.

Observando os traços das letras,

a disposição delas no quadrado definido pelo bloco de concreto,

é possível identificar um enunciador que coloca sua mensagem de forma veemente e organizada,

usando também o gracejo como forma de rebelião.

É possível ler,

alguns elementos significativos.

O enunciador afirma não ser “rei,

o enunciador não faria parte de governos ou lideranças,

nem estaria acima de qualquer regra,

estaria debaixo das mesmas convenções que qualquer cidadão,

já que ele não é um amoral10.

Porém,

ele afirma ser “cara de pau”,

ou seguindo o uso comum do termo,

Pode-se concluir,

que o enunciador parte do povo,

sendo que este não tem nenhum tipo de autoridade tanto política quanto sociocultural,

e que ele se faz ver pela intervenção da pixação,

usando de coragem e “cara de pau” para infringir as regras comunicacionais e de

Amoral: “Nem contrário,

A que falta moral ou que não tem senso dela.”FERREIRA,

2001,

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expressão e falar à coletividade que verá seu discurso na parede do elevado.

Após isso,

aparece a inscrição “kkk”,

uma expressão que demonstra riso,

Vejamos um segundo objeto de análise (cf.

Figura 3),

onde são também perceptíveis elementos relacionados à pixação,

figuras e formas de letras desconexas.

É possível perceber nos escritos da pixação traços identificáveis,

elementos da língua portuguesa,

palavras legíveis a um conhecedor do código linguístico.

Figura 3: Pixação feita em um dos elevados do complexo do Entroncamento,

Fonte: acervo de pesquisa dos autores.

Foto: Luana Coelho.

Na pixação lê-se a frase “preta te amo

Para compreendermos esse texto precisamos entender o contexto.

Uma possível interpretação do enunciado “preta te amo

!” é a frase como uma declaração ou demonstração de afeto por alguém.

O enunciado esconde um “eu” locutor,

que fala para vários sujeitos,

já que pixação está em um muro.

O destinatário está representado na palavra “preta”,

palavra que não necessariamente pode ser relacionada à ausência de cor ou de luz,

como estudam a teoria e psicologia das cores,

como uma demonstração de carinho da parte de um casal de namorados.

Tal interpretação confirmasse no “te amo” inscrito abaixo.

Os outros traços encontrados na pixação são de difícil compreensão,

podendo ter uma significação somente para quem o fez ou uma interpretação dentro dos crews11 específicos.

Maingueneau (2001) afirma em seu estudo sobre contexto que a enunciação não poderá ser compreendid